terça-feira, 10 de novembro de 2015

Cidades debaixo d’água

O aumento do nível do mar pode desalojar até 760 milhões de pessoas — o equivalente à população da Europa — ainda neste século. Isso ocorrerá caso a temperatura global aumente 4 graus Celsius — valor calculado por diversos estudos científicos, que será atingido se não forem tomadas providências para reduzir as emissões de gases-estufa. A estimativa é de um relatório divulgado ontem pela ONG americana Climate Central. E o Brasil estará entre os países mais afetados pelo avanço das águas. Em toda a zona costeira, 16 milhões de pessoas perderiam suas casas antes do ano 2100.
Pelo levantamento, o Rio de Janeiro estará entre as vinte metrópoles mais afetadas do planeta. Com a elevação dos termômetros, o aumento projetado de quase nove metros do nível do mar neste século desalojaria 24% dos cariocas (cerca de 1,5 milhão de pessoas). Os efeitos mais catastróficos, porém, terão a Ásia como palco. De acordo com o estudo, 76% dos moradores de Xangai, na China, podem ser obrigados a deixar suas casas. Seriam 18 milhões de pessoas desabrigadas.

Há, no entanto, como evitar índices tão caóticos. Se a temperatura global avançar apenas 2 graus Celsius, o objetivo perseguido nas negociações internacionais sobre o clima, o aumento do nível do mar seria contido a 4,7 metros. Neste caso, 280 milhões de pessoas — entre elas, 8,9 milhões de brasileiros —, precisariam abandonar regiões litorâneas. No Rio, 13% da população (832 mil pessoas) deixariam as novas áreas banhadas.

Camilla Born, pesquisadora sênior em Diplomacia do Clima no think tank (entidade que busca produzir conhecimento sobre temas estratégicos) ambiental E3G, diz que, mesmo com a mobilização sem precedentes contra as mudanças climáticas, de fato “algum aquecimento será inevitável”.

— Megatempestades como o furacão Sandy, o tufão Haiyan e as secas extremas na África Subsaariana são sinais de nossa exposição — assinala. — Novos aumentos da temperatura global levarão ao aumento do nível do mar e à ameaça às populações costeiras. Não estamos conseguindo nos adaptar a esta situação tão instável.

Professor do Programa de Planejamento Energético da Coppe-UFRJ, Roberto Schaeffer assinala que o estudo americano traz a relação mais detalhada já feita das regiões costeiras do planeta vulneráveis à elevação do nível dos oceanos.

— Em alguns locais, como Nova York, os pesquisadores mostram o que ocorrerá em cada quarteirão — elogia. — Talvez o aumento do nível do mar ainda não tenha gerado uma grande preocupação na ciência, a ponto de vermos nossa fragilidade à elevação do mar. Embora boa parte da população mundial more em zonas costeiras, até agora não tínhamos um mapeamento detalhado.

Na semana passada, o instituto americano Pew Research Center divulgou um levantamento realizado com 45 mil pessoas de 40 países. Os entrevistados revelaram quais fenômenos climáticos consideravam mais preocupantes. Em nenhuma nação o aumento do nível do mar foi registrado como o maior temor. Trata-se do principal motivo de susto para apenas 6% dos participantes da enquete — índice muito inferior aos que elegeram a seca (44%), tempestades e enchentes (25%) ou ondas de calor (14%).

Ben Marzeoin, professor do Instituto de Geografia da Universidade de Bremen, na Alemanha, concorda que a população mundial não enxerga a atenção ao oceano como uma de suas urgências. E esta atitude, segundo ele, vai custar caro.

— É nossa capacidade de cooperar e planejar com antecedência que permitiu o progresso da Humanidade nos últimos séculos. O estudo da Climate Central mostra que decidiremos o tamanho do fardo que vamos deixar para as próximas gerações.

Prefeituras, como a do Rio, tomam a frente

O avanço dos oceanos gera uma crescente inquietação entre os governos nacionais. No entanto, em diversos casos, a adaptação às mudanças climáticas nas metrópoles costeiras tem sido capitaneada por prefeitos.

— As cidades já estão assumindo as rédeas — repara Strauss. — Para se protegerem no futuro, as metrópoles litorâneas devem tomar a liderança no desenvolvimento de projetos que lidem com o aumento do nível do mar.

Oitenta metrópoles, onde vivem cerca de 9% da população mundial, compõem o C40, o Grupo de Grandes Cidades para a Liderança Climática. O prefeito Eduardo Paes é o atual presidente da organização. O Rio tenta dar exemplo em como evitar um banho do oceano.

Assessor especial de Paes, Rodrigo Rosa revela que a cidade precisa identificar seus pontos de maior vulnerabilidade, diante da incerteza de como o aquecimento global vai intervir no aumento do nível do mar. Fonte: O Globo

Nenhum comentário:

Postar um comentário